Ciencia Rural
Universidade Federal de Santa Maria
cienciarural@mail.ufsm.br
ISSN (Versión impresa): 0103-8478
ISSN (Versión en línea): 1678-4596
BRASIL
2007
André Luis Selmi / João Guilherme Padilha Filho / Bruno Testoni Lins / Guilherme
Maia Mendes / Gisleine Cristina Eimantas
O CENTRO INSTANTÂNEO DE MOVIMENTO E VETOR VELOCIDADE EM
JOELHOS SUBMETIDOS A INCISUROPLASTIA TROCLEAR E ESTABILIZAÇÃO
ARTICULAR APÓS TRANSECÇÃO DO LIGAMENTO CRUZADO CRANIAL EM
CÃES
Ciencia Rural,
maio-junho, año/vol. 37, número 003
Universidade Federal de Santa Maria
Santa Maria, Brasil
pp. 777-783
Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal
Universidad Autónoma del Estado de México
http://redalyc.uaemex.mx
777
O centro instantâneo de movimento e vetor velocidade em joelhos submetidos a incisuroplastia troclear...
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
Ciência Rural, Santa Maria, v.37, n.3, p.777-783, mai-jun, 2007
ISSN 0103-8478
RESUMO
Avaliou-se o centro instantâneo de movimento e
vetor velocidade após a transecção do ligamento cruzado
cranial (LCCr), seguida da substituição ligamentar por retalho
de fáscia lata, associada ou não a incisuroplastia troclear
(ITR) em nove cães adultos. O joelho direito (GI) foi submetido
a ITR e posterior estabilização articular, e o joelho esquerdo
submetido somente a substituição ligamentar (GC). Os animais
foram avaliados nos períodos pré-operatório, pós-operatório
imediato e aos 30, 90 e 180 de pós-operatório, correspondente
ao momento de eutanásia de subgrupos de três animais. O
centro instantâneo de movimento (CIM) e o vetor velocidade
(Vv) resultante foram determinados por meio do deslocamento
de pontos a partir da análise radiográfica dos joelhos. Todas
as articulações apresentavam CIM e Vv normais antes da
transecção do ligamento cruzado cranial. Após a estabilização
articular, acompanhada ou não de ITR, observou-se o
posicionamento normal do CIM e Vv resultante, em todos os
períodos de avaliação, apesar da presença de movimento de
gaveta em três animais de GC e dois de GI no pós-operatório
imediato, em dois animais de cada grupo, aos 30 dias de
avaliação, e em um animal em cada grupo nas avaliações
subseqüentes. Conclui-se que a estabilização articular com
retalho de fáscia lata, associada ou não a ITR, mantém a
integridade biomecânica do joelho, quando considerados o
CIM e o Vv.
Palavras-chave: biomecânica, radiografia, desmotomia.
ABSTRACT
The instantaneous center of motion (ICM) and
velocity vector (Vv), after transection of the cranial cruciate
ligament (CCL) followed by a fascial strip reconstruction in
association with intercondylar notchplasty (IN), were studied
in nine adult dogs. The right stifle was submitted to IN followed
by fascial strip reconstruction of the CCL (GI) while in the left
stifle IN was not performed (GC). Dogs were evaluated the day
prior to surgery, immediately after surgery and at 30, 90 and
180 days postoperatively (po), time at which a subgroup of
three dogs were euthanatized. The ICM and resulting Vv were
determined by radiographic examination of the stifle. All the
stifles presented normally positioned ICM and Vv before surgery.
No changes were observed in ICM or Vv in all stifles following
intra-articular repair, in association or not with IN, throughout
the evaluation period, despite the fact that three dogs in GC
and two in GI presented a positive cranial drawer sign
immediately following surgery, two dogs in GC and GI at 30
days po, and one single dog in each group thereafter until 180
days po. It is concluded that articular repair, in association
with IN or not, did not alter stifle biomechanics, in respect to
ICM and Vv.
Key words: biomechanics, radiography, desmotomy.
INTRODUÇÃO
A ruptura do ligamento cruzado cranial
(RLCCr) é a causa mais freqüente de claudicação em
membro pélvico diagnosticada na prática clínico-
cirúrgica de pequenos animais (PROSTREDNY et al.,
1991; ROOSTER & VAN BREE, 1999). Classicamente, a
RLCCr é diagnosticada pela presença da instabilidade
articular craniocaudal e posteriormente confirmada
durante a intervenção cirúrgica (ARNOCZKY et al.,
1977; SHIRES & HULSE, 1984; COETZEE & LUBBE,
1995), apesar de avaliações radiográficas com a
articulação sob estresse serem recomendadas como
auxílio diagnóstico (ROOSTER & VAN BREE, 1999).
O centro instantâneo de movimento e vetor velocidade em joelhos submetidos a
incisuroplastia troclear e estabilização articular após transecção do
ligamento cruzado cranial em cães
André Luis Selmi
I
João Guilherme Padilha Filho
II
Bruno Testoni Lins
III
Guilherme Maia Mendes
III
Gisleine Cristina Eimantas
I
Instantaneous center of motion and velocity vector in stifle of dogs undergoing intercondylar
notchplasty and articular repair following transection of the cranial cruciate ligament
I
Curso de Medicina Veterinária, Universidade Anhembi Morumbi. Rua Conselheiro Lafaiete, 64, Brás, 03164-110, São Paulo, SP,
Brasil. E-mail:selmi@anhembi.br. Autor de correspondência.
II
Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Universidade Estadual
Paulista (UNESP). Jaboticabal, SP, Brasil.
III
Curso de Pós-graduação em Cirurgia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), UNESP, Botucatu, SP,
Brasil.
Recebido para publicação 27.04.05 Aprovado em 25.10.06
778
Selmi et al.
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
Numerosas técnicas cirúrgicas têm sido
descritas para a estabilização articular após a RLCCr,
sendo tradicionalmente divididas em intra ou extra-
articulares. As divergências em relação à superioridade
das técnicas quanto ao melhor retorno da função e
quanto à estabilidade articular são constantes, e alguns
estudos têm sugerido que não são todos os
procedimentos que resultam em biomecânica eficiente
(ARNOCZKY et al., 1977; SELMI et al., 2003). Acredita-
se que os procedimentos de reconstrução intra-
articular propiciem melhor posicionamento anatômico
do material empregado na substituição do ligamento
rompido, sendo mais indicados na manutenção da
biomecânica articular por mimetizarem o trajeto do
ligamento cruzado cranial (SHIRES & HULSE, 1984;
ELKINS et al., 1991; VASSEUR & BERRY, 1992;
COETZEE & LUBBE, 1995; GEELS et al., 2000; SELMI
et al., 2002). Dentre as várias técnicas intra-articulares
empregadas na estabilização articular após a RLCCr
em cães, a descrita por SHIRES & HULSE (1984),
conhecida como “under-and-over", e posteriormente
modificada por COETZEE & LUBBE (1995), tem
demonstrado resultados clínicos satisfatórios.
Resumidamente, esta consiste no preparo de uma faixa
de fáscia lata que se mantém inserida na tuberosidade
da tíbia, conduzida através da fossa intercondilar por
debaixo do ligamento intermeniscal, com emergência
caudal sobre o côndilo lateral do fêmur, de onde é
posteriormente tracionada e suturada ao tendão patelar.
Apesar do grande número de estudos
clínicos realizados utilizando técnicas intra-articulares
(SHIRES & HULSE, 1984; VASSEUR & BERRY, 1992;
COETZEE & LUBBE, 1995; JEVENS et al., 1996;
VASSEUR et al., 1996; GEELS et al., 2000; SELMI et al.,
2002), a estenose da fossa intercondilar (EFI),
decorrente da formação de osteófitos na fossa
intercondilar secundária à instabilidade articular, tem
recebido pouca atenção na reconstrução intra-articular
da RLCCr em Medicina Veterinária (VASSEUR & BERRY,
1992; AIKEN et al., 1995; FITCH et al., 1995a; FITCH et
al., 1995b; VASSEUR et al., 1996). A EFI previne o
posicionamento isométrico e ortotópico de substitutos
ligamentares, além de predispor ao contato excessivo
entre o neoligamento e a superfície articular do aspecto
medial do côndilo lateral do fêmur, podendo resultar
em ruptura precoce do enxerto (VASSEUR & BERRY,
1992; AIKEN et al., 1995; FITCH et al. 1995b; VASSEUR
et al., 1996; LA PRADE et al., 1998; MANN et al., 1999;
SELMI et al., 2002). Por conseguinte, a realização de
incisuroplastia troclear, que consiste no desgaste da
fossa intercondilar estenosada, apesar de ser
procedimento relativamente freqüente em humanos
com RLCCr (LA PRADE et al., 1998; MANN et al., 1999),
apresenta-se pobremente descrita em Medicina
Veterinária (AIKEN et al., 1995; FITCH et al., 1995a;
FITCH et al., 1995b).
Várias formas de avaliação pós-operatória
têm sido utilizadas para verificar o resultado da
estabilização cirúrgica após a RLCCr, incluindo a
presença ou não do movimento de gaveta (SHIRES &
HULSE, 1984; PROSTREDNY et al., 1991; COETZEE &
LUBBE, 1995; LA PRADE et al., 1998; GEELS et al.,
2000), a qualidade subjetiva de apoio do membro, o
perímetro muscular da coxa e a amplitude de movimento
articular (SHIRES & HULSE, 1984; INNES & BARR,
1998; LA PRADE et al., 1998), o uso de placa de força
(JEVENS et al., 1996; GEELS et al., 2000), e avaliações
radiográficas para documentação da progressão de
osteoartrose (SHIRES & HULSE, 1984; COETZEE &
LUBBE, 1995; GEELS et al., 2000) ou para determinação
do centro instantâneo de movimento (CIM)
(PROSTREDNY et al., 1991; SELMI et al., 2003).
O CIM é considerado como um ponto
localizado no fêmur, em qualquer fase da amplitude de
movimento deste osso em relação à tíbia, no qual a
velocidade vetorial é igual a zero, e traduz-se pelo eixo
de rotação articular num determinado momento
submetido à neutralidade (IRELAND et al., 1986;
PROSTREDNY et al., 1991), onde o movimento articular
normal pode ser predominantemente de rolamento ou
deslizamento, e representa uma forma simples e eficiente
de se avaliar a biomecânica articular (MITTON et al.,
1991; PROSTREDNY et al., 1991; SELMI et al., 2003).
O objetivo deste estudo foi analisar os
efeitos da estabilização intra-articular quanto ao CIM e
ao Vv após transecção do ligamento cruzado cranial,
acompanhada ou não da incisuroplastia troclear, no
joelho, em cães.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizados nove cães hígidos, sem
raça definida, machos ou fêmeas, adultos, com massa
corporal entre 15 e 25kg (média: 20,9±4,8kg),
provenientes do Centro de Controle de Zoonoses. Os
animais foram colocados em canis individuais com
aproximadamente 1,5m
2
de área. Receberam ração
comercial
a
e água ad libitum.
Para o desenvolvimento deste estudo, os
cães tiveram o joelho direito submetido a ITR e posterior
estabilização articular (GI), enquanto que o joelho
esquerdo foi submetido somente à substituição
ligamentar (GC). Os cães foram agrupados em três
subgrupos correspondentes ao período de eutanásia
no 30º, 90º e 180º dia pós-operatório.
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O centro instantâneo de movimento e vetor velocidade em joelhos submetidos a incisuroplastia troclear...
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
Para realização dos procedimentos
cirúrgicos, os animais foram mantidos em jejum hídrico
e alimentar nas 12 horas que antecederam o ato
cirúrgico. A medicação pré-anestésica foi realizada com
maleato de acepromazina
b
(0,1mg kg
-1
– IV). A anestesia
cirúrgica foi induzida, 15 minutos após, com propofol
c
(6mg kg
-1
– IV). Os animais foram medicados com
cetoprofeno
d
( 2,2mg kg
-1
– IV), e posicionados para
realização de anestesia epidural empregando-se
associação de sulfato de morfina
e
(0,1mg kg
-1
), cloridrato
de lidocaína
f
(1,0
mg kg
-1
) e de bupivacaína
g
(0,5mg kg
-1
).
Os animais foram intubados e a anestesia mantida em
circuito semifechado empregando-se sevoflurano
h
vaporizado em oxigênio. Em seguida, foi administrada
cefalexina sódica
i
(20mg kg
-1
– IV). Durante todo o
período anestésico, os animais receberam solução de
Ringer com lactato (10mL kg
-1
hr
-1
– IV).
Abordou-se a articulação a partir de incisão
parapatelar lateral. Após identificação, secção e
remoção do LCCr, realizou-se, no GI, a incisuroplastia
troclear, que consistiu no desgaste da porção medial
do côndilo lateral do fêmur, com auxílio de fresa óssea
acoplada a motor elétrico de baixa rotação, removendo-
se a porção cranial, média e caudal da incisura troclear
lateral. Essa manobra foi acompanhada da irrigação
intermitente da articulação com solução salina estéril.
Foi então confeccionado o retalho de fáscia lata,
conforme técnica descrita por COETZEE & LUBBE
(1995). O retalho foi mantido unido à tuberosidade da
tíbia, seguido de sua condução craniocaudal por sob o
ligamento intermeniscal e, posteriormente, através da
articulação com emergência caudal e proximal à fabela
lateral. Para fixação do retalho, empregou-se fio de
polipropileno 0
j
, com padrão de sutura interrompido
simples. A cápsula articular foi suturada com fio de
poliglactina 910 2-0
l
com sutura contínua simples, e o
defeito na fáscia lata aproximado com sutura
interrompida simples com fio de polipropileno 2-0. A
porção remanescente do retalho foi suturada sob
tensão ao tendão patelar, empregando-se sutura
interrompida simples com polipropileno 0. A dermorrafia
foi realizada por meio de sutura interrompida simples
com náilon 3-0
m
. No GC, o procedimento cirúrgico foi
análogo, exceto pela ausência da incisuroplastia
troclear. Para se minimizarem quaisquer efeitos
temporais, as cirurgias nas articulações contralaterais
foram realizadas em momentos cirúrgicos
subseqüentes.
Foi aplicado adesivo de liberação gradativa
de fentanil
n
à região lombar, imediatamente ao término
da cirurgia. A administração de cetoprofeno foi realizada
na mesma dose que a utilizada previamente à cirurgia,
durante quatro dias subseqüentes ao ato cirúrgico.
Diariamente, efetuou-se limpeza da ferida cirúrgica com
solução fisiológica, até o décimo dia pós-operatório,
momento da retirada dos pontos.
A presença do movimento de gaveta e o
exame radiográfico das articulações foram realizados
previamente à cirurgia (T-1), imediatamente após a
estabilização articular (T1), e aos 30 (T30), 90 (T90) e
180 (T180) dias pós-operatórios. O movimento de
gaveta foi classificado subjetivamente em zero
(movimento de gaveta ausente) ou um (movimento de
gaveta presente).
O exame radiográfico, em projeção
mediolateral com extensão articular total e com flexão
de 90º, foi realizado para determinação do CIM e Vv. As
projeções foram realizadas com o membro apoiado
diretamente sobre o chassi radiográfico a uma distância
foco-filme de 100cm. O plano da flexão articular foi
paralelo ao plano do filme, com os raios-X centrados
na articulação. O CIM e o Vv resultante foram
determinados segundo o método de “Rouleaux"
(MITTON et al., 1991), que consistiu na sobreposição
dos fêmures nas projeções em flexão e extensão, e
determinação de dois pontos de referência idênticos,
com intervalo mínimo de distância de quatro a cinco
centímetros entre eles. Em seguida, as radiografias
foram sobrepostas, de forma que a silhueta da tíbia
fosse coincidente, determinando-se o deslocamento
dos pontos femorais previamente estabelecidos. O
deslocamento respectivo dos dois pontos demarcados
no fêmur foi então unido por uma reta. Posteriormente,
determinaram-se as mediatrizes a essas retas, sendo
que a intersecção destas evidenciava o CIM. O CIM
foi unido por uma reta ao ponto de maior contato
articular, evidenciando assim o eixo CIMp. Para
determinação do Vv, foi traçada uma reta
perpendicularmente à CIMp, conforme sugeriram
FRANKEL et al. (1971), PROSTREDNY et al. (1991) e
SELMI et al. (2003)
Para avaliação das variáveis nos momentos
pós-operatórios, excetuando-se o grau de claudicação,
os animais foram tranqüilizados com maleato de
acepromazina 1% (0,1mg Kg
-1
– IV) e, após 15 minutos,
anestesiados com tiopental sódico
o
(12,5mg Kg
-1
– IV).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos resultados pós-operatórios
nas estabilizações cirúrgicas após ruptura do LCCr é
muitas vezes subjetiva, baseando-se na avaliação da
qualidade da deambulação e presença de instabilidade
craniocaudal do joelho (SHIRES & HULSE, 1984;
COETZEE & LUBBE, 1995; LA PRADE et al., 1998;
SELMI et al., 2002) e no uso de radiografias para
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Selmi et al.
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
documentação do grau de osteoartrose (SHIRES &
HULSE, 1984; VASSEUR & BERRY, 1992; COETZEE &
LUBBE, 1995; GEELS et al., 2000). Contudo, variáveis
objetivas como perímetro da coxa, amplitude de
movimento articular e uso da placa de força (JEVENS
et al., 1996; LA PRADE et al., 1998; GEELS et al., 2000)
também são recomendadas. A despeito da gama de
informações obtidas com o uso da placa de força, a
aquisição de dados é dependente de material
apropriado, com custo elevado, e muitas vezes com
aplicação exclusivamente experimental, sendo restrita
a centros de pesquisa. Em contrapartida, a avaliação
radiográfica do joelho é de fácil realização e de ampla
disponibilidade clínica.
Vários autores têm sugerido o uso de
avaliações radiográficas para o diagnóstico da RLCCr
(ROOSTER & VAN BREE, 1999), no entanto, até o
momento, as diferentes técnicas radiográficas não
foram avaliadas como forma de se estabelecer
prognóstico. A documentação radiográfica da
progressão de osteoartrose, apesar de amplamente
utilizada, não demonstra correlação com a evolução
clínica pós-cirúrgica (VASSEUR & BERRY, 1992; INNES
& BARR, 1998; SELMI et al., 2002) Contrariamente, a
determinação radiográfica do CIM tem sido descrita
por diversos autores (ARNOCZKY et al., 1977;
IRELAND et al., 1986; PROSTREDNY et al., 1991;
SELMI et al., 2003) na avaliação pré ou pós-operatória
e após estabilizações intra ou extra-articulares.
A avaliação radiográfica pré-operatória dos
joelhos dos cães deste estudo evidenciou a presença
de CIM extra-articular em todas as articulações, de
ambos os grupos, com vetor velocidade tangente ao
ponto de contato articular, indicando movimento normal
de deslizamento entre as superfícies articulares. O vetor
velocidade, que determina as forças compressivas
existentes na articulação, é representado por uma reta
tangente à superfície articular quando as forças
atuantes na articulação apresentam-se neutralizadas,
desta forma propiciando menor resistência ao
movimento de flexão e extensão do membro
(PROSTREDNY et al., 1991). Essa condição é observada
quando o CIM encontra-se posicionado na superfície
articular no ponto de contato entre as cartilagens
articulares, ou quando está localizado de forma extra-
articular, perpendicularmente ao ponto de contato
articular. Se o CIM localiza-se em uma linha não-
perpendicular ao ponto de maior contato das
superfícies articulares, o vetor velocidade naquele
ponto não será tangente à superfície condilar,
resultando em forças compressivas nas superfícies
articulares e conseqüentemente no aumento das forças
de fricção durante a movimentação do membro
(FRANKEL et al., 1971; ARNOCZKY et al., 1977;
PROSTREDNY et al., 1991).
O CIM descreve objetivamente e de forma
reproduzível a estabilidade e o comportamento
biomecânico articular (ARNOCSKY et al., 1977;
PROSTREDNY et al., 1991) em condições in vivo ou ex
vivo (IRELAND et al., 1986). No entanto, é importante
ressaltar que o correto posicionamento da articulação,
durante exposição radiográfica, é de fundamental
necessidade para avaliação do CIM, uma vez que, de
acordo com PANJABI, citado por MITTON et al. (1991),
o método é sensível a pequenos erros na determinação
dos pontos de referência identificados no fêmur. Dentre
estes, cita-se que o ângulo formado entre as mediatrizes
deve ser diferente de 90º, além de se manter a distância
mínima entre os pontos de referência de 5cm e o menor
deslocamento angular do fêmur entre as posições
radiográficas. Ângulos entre as mediatrizes iguais a
90º são decorrentes de deslocamentos angulares
excessivos durante a avaliação do CIM e são
responsáveis por variações articulares rotacionais, que
dificultam a determinação dos pontos de referência
femoral. Cita-se ainda a dificuldade para correta
determinação do ponto de maior contato articular
radiográfico, visto que se trata de uma superfície de
contato e não de um único ponto.
Durante a avaliação física prévia de todos
os joelhos estudados, não foi observada a presença
de movimento de gaveta ou quaisquer outras alterações
músculo-esqueléticas sugestivas de instabilidade
articular como excessiva rotação interna da tíbia,
crepitação e instabilidade mediolateral. No momento
imediatamente após a estabilização articular, três, dentre
nove articulações pertencentes ao GC (cães 2, 5 e 8),
apresentaram movimento de gaveta. No GI, o
movimento de gaveta estava presente em duas
articulações durante a extensão (cães 2 e 6). Aos 30
dias de pós-operatório, observou-se presença de
movimento de gaveta em duas articulações de GC (cães
2 e 8) e de GI (cães 2 e 6) durante a extensão; aos 90
dias p.o., apenas uma articulação de GC (cão 2) e outra
de GI (2) apresentavam instabilidade durante a extensão
e, aos 180 dias de avaliação, um animal em cada grupo
apresentava instabilidade craniocaudal durante a
extensão articular (cão 2 em GC e cão 2 em GI). Apesar
da instabilidade clínica observada nos diferentes
momentos de avaliação po, todas as articulações
apresentavam CIM extra-articular e vetor velocidade
normal. Tais observações corroboram a ausência de
correlação entre os achados clínicos e avaliações
objetivas (SHIRES & HULSE, 1984; COETZEE &
LUBBE, 1995; LA PRADE et al., 1998; SELMI et al.,
2002). As possíveis causas pela presença de
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O centro instantâneo de movimento e vetor velocidade em joelhos submetidos a incisuroplastia troclear...
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
movimento de gaveta nos cães de ambos os grupos
podem ser em decorrência da falta de isometricidade
do retalho de fáscia lata ou de tensão inadequada
durante a fixação do retalho ao tendão patelar. Vale
citar que a instabilidade foi avaliada como presente ou
ausente, mas, em nenhum dos joelhos em estudo, a
instabilidade foi considerada importante do ponto de
vista clínico. AIKEN et al. (1995) e COETZEE & LUBBE
(1995) descrevem instabilidade residual em seus
estudos, e a atribuem à falta de tendão do retalho
articular durante a fixação. Os dados referentes ao
número de animais com movimento de gaveta e à
localização do CIM e do vetor velocidade estão
dispostos na tabela 1.
Neste estudo, visto a natureza da avaliação
pós-operatória, não foi possível determinar o CIM e o
Vv após transecção do LCCr, uma vez que, para tal,
seria necessário suturar a ferida cirúrgica, de modo a
restabelecer a integridade dos mecanismos secundários
de estabilidade articular, evitando a influência deste
fator na determinação do CIM. Deste modo, tornou-se
impraticável avaliar se os animais deste estudo
apresentaram ou não alterações do CIM e do Vv após
transecção do LCCr imediatamente antes do reparo
cirúrgico. A estabilização articular proposta por
COETZEE & LUBBE (1995), utilizada neste estudo, é
derivada da técnica “over-the-top" sugerida por
ARNOCZKY et al. (1977). Estes autores avaliaram o
CIM e o Vv resultante após estabilização intra-articular
em cadáveres caninos, e relataram a manutenção do
CIM, e respectivo Vv, antes da transecção do LCCr,
após a mesma, e imediatamente após a estabilização
cirúrgica. Contrariamente, MITTON et al. (1991),
utilizando a mesma técnica em casos clínicos, referiram
diferenças significativas entre o CIM de joelhos estáveis
e instáveis, e atribuíram tais diferenças ao estresse
radiográfico imposto à articulação e a possíveis lesões
meniscais diagnosticadas durante o ato cirúrgico.
SELMI et al. (2003) relataram similaridade aos achados
de MITTON et al. (1991); entretanto, mesmo sem terem
utilizado exposição radiográfica com as articulações
em estresse e sem descreverem lesões de menisco,
sugeriram o estresse articular de forma a evidenciar
possíveis alterações do CIM. Discrepâncias entre os
achados em articulações estáveis e instáveis foram
observadas por PROSTREDNY et al. (1991), embora as
possíveis causas destas diferenças não serem
conhecidas.
Em pacientes com LCCr, a articulação do
joelho apresenta movimento de rolagem e de
deslizamento que podem ser confirmados pela posição
intra ou extra-articular do CIM, respectivamente
(ARNOCZKY et al., 1977; IRELAND et al., 1986;
PROSTREDNY et al., 1991). Biomecanicamente, o CIM
encontrava-se em posição extra-articular em todas as
articulações de ambos os grupos, acompanhado de Vv
tangente à superfície articular, indicando a manutenção
do movimento de deslizamento observado no momento
pré-operatório. Este comportamento foi observado até
180 dias de avaliação po, e evidencia a eficácia clínica
da técnica proposta por COETZEE & LUBBE (1995),
nos joelhos do grupo controle e naqueles submetidos
a ITR. Estas observações são corroboradas pelas de
LA PRADE et al. (1998), que relataram manutenção da
marcha após ITR em joelhos caninos estáveis. Contudo,
JEVENS et al. (1996) e GEELS et al. (2000) descreveram
a diminuição do apoio após estabilização articular
utilizando a técnica “under-and-over" proposta por
SHIRES & HULSE (1984). Há de se considerar que a
avaliação do CIM e do Vv são estáticas e refletem o
comportamento das superfícies articulares numa dada
variação de amplitude de movimento articular, enquanto
que análises por placa de força demonstram a cinética
do movimento articular (JEVENS et al., 1996). Entretanto,
a análise isolada do CIM não indica se ocorre
compressão ou separação das superfícies
Tabela 1 - Freqüência do movimento de gaveta, centros instantâneos de movimento (CIM) e vetores velocidade (Vv), após reconstrução
articular com retalho de fáscia lata, precedida (GI) ou não de incisuroplastia troclear (GC) em cães submetidos à transecção do
ligamento cruzado cranial.
Tempo de avaliação
Grupo
Variável
T-1
T1
T30
T90 T180
Movimento de gaveta (extensão) -
+ (3) + (2) + (1) + (1)
GC
CIM
E
E
E
E
E
Vv
N
N
N
N
N
Movimento de gaveta (extensão) -
+ (2) + (2) + (1) + (1)
GI
CIM
E
E
E
E
E
Vv
N
N
N
N
N
O dígito entre parênteses representa o número de ani mais com presença de alterações. + - presença de movimento de gavet a. - - ausência de
movimento de gaveta. E - localização extra-articular, N - vetor velocidade tangente à superfície articular.
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Selmi et al.
Ciência Rural, v.37, n.3, mai-jun, 2007.
cartilaginosas durante o movimento articular. Quando
essa variável é analisada juntamente com o sentido do
Vv, pode-se determinar se existem ou não forças
compressivas ou de distração que imponham
resistência ao movimento articular. Pela manutenção
do Vv tangente à superfície articular, acredita-se que a
biomecânica dos joelhos, após estabilização cirúrgica
associada ou não a ITR, foi preservada.
Apesar de os efeitos biomecânicos não
terem sido alterados durante o período de avaliação
nas articulações deste estudo, deve-se considerar que
o método utilizado negligencia os efeitos rotacionais
da tíbia durante a flexão articular. De acordo com
MITTON et al. (1991), o CIM e o Vv resultante são
determinados principalmente em articulações planares,
ou seja, articulações que, quando observadas
perpendicularmente a um plano, apresentam velocidade
resultante igual a zero num determinado ponto, a cada
instante do movimento. Desta forma, considera-se o
joelho como uma articulação planar em quase sua
totalidade de amplitude.
Relativamente à presença de movimento de
gaveta durante a extensão articular, observou-se
comportamento similar entre os grupos. Considerando-
se a subjetividade da avaliação do movimento de
gaveta, e a falta de correlação deste parâmetro com a
função clínica (INNES & BARR, 1998), pode-se afirmar
que, a despeito deste achado de forma regressiva
em
ambos os grupos, as articulações apresentavam-se
dentro da normalidade, fato confirmado pelas
observações referentes ao CIM e ao Vv.
CONCLUSÕES
Conclui-se que a estabilização articular com
retalho de fáscia lata associada ou não a incisuroplastia
troclear não altera o posicionamento do centro
instantâneo de movimento ou o vetor velocidade
resultante, mantendo a integridade biomecânica articular,
apesar da presença regressiva de movimento de gaveta.
FONTES DE AQUISIÇÃO
a
Golden Formula, Grandfood do Brasil. SP.
b
Acepran. Univet S.A. SP.
c
Propoabbott. Abbott do Brasil. SP.
d
Ketofen. Merial. SP.
e
Dimorf. Cristália. SP.
f
Xilestesin. Cristália. SP.
g
Bupivacaína. Cristália. SP.
h
Sevorane. Abbott do Brasil. SP.
i
Cefalexina. Ariston. SP.
j
Prolene. Ethicon. SP.
l
Vicryl. Ethicon. SP.
m
Ethilon. Ethicon. SP.
m
Durogesic. Jansen & Cillag. Canadá.
o
Thionembutal. Abbott do Brasil. SP
COMISSÃO DE ÉTICA E BIOSSEGURANÇA
O trabalho foi submetido e aprovado pela Comissão de Ética da
Universidade de Brasília, e realizado de acordo com as normas
do COBEA.
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